Como o declínio do Fies afeta a sua instituição de ensino?

Com os cortes de bilhões no programa, as IES enfrentaram queda no número de matrículas e aumento da inadimplência. Entenda como o declínio do Fies afeta a sua instituição. 

O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) é um programa do Ministério da Educação (MEC), instituído por Lei em julho de 2001.

Seu objetivo é conceder financiamento a estudantes de cursos superiores presenciais pagos e ofertados por instituições de educação superior privadas vinculadas ao programa.

Para quem não se lembra, o programa era chamado de crédito estudantil no governo Fernando Henrique Cardoso (1995 – 2002) e foi ampliado durante o governo Lula (2003 – 2011).

Em 2015, a taxa de juros foi fixada em 6,5% ao ano para todos os cursos (no governo Lula, a taxa era de 3,4%), sob a justificativa de “contribuir para a sustentabilidade do programa” e “realizar um realinhamento da taxa de juros às condições existentes no cenário econômico e à necessidade de ajuste fiscal”.

 

 

Em 2018, foi definido que os juros do “Novo Fies” passariam a ser cobrados conforme duas modalidades.

Na primeira, o Fies passou a ter juro zero e engloba estudantes com renda familiar de até 3 salários mínimos. São 100 mil vagas disponibilizadas por ano.

A segunda modalidade, P-Fies, cobra juros que variam de acordo com os bancos privados participantes e atende estudantes com renda familiar de até 5 salários mínimos. Nessa modalidade, não há limite de vagas.

Para obter o financiamento, em ambas as modalidades, era essencial que o aluno tivesse obtido o mínimo de 450 pontos no Enem e não ter zerado a redação.

 

Financiamento teve novas alterações em 2019

As regras para a cobrança de juros continuam as mesmas, porém, a partir deste ano, o aluno não precisa mais do mínimo de 450 pontos obtidos no Enem para conseguir o P-Fies.

O contrato, agora, é fechado com os estudantes que se inscreverem primeiro no programa.

Com isso, o governo pretende dar agilidade ao processo de obtenção de financiamento junto aos bancos.

Fies sofreu cortes de bilhões de reais

Ironicamente, no ano em que a presidenta Dilma Rousseff lançou o slogan “Brasil, pátria educadora”, o Fies sofreu cortes que chegaram a R$10 bilhões de reais.

O programa havia se tornado insustentável, com custos que poderiam superar R$55 bilhões até 2020, segundo estimativa do Tribunal de Contas da União. O governo, então, restringiu o acesso dos estudantes ao programa e adiou o pagamento às IES aderidas.

À época, os jornais noticiaram o episódio como o colapso da educação superior brasileira, já que as maiores bandeiras, Fies e Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) haviam sido as principais afetadas.

 

 

2015 foi o ano em que o preço do dólar aumentou para quase R$4 e a inflação para 10%. O desemprego subiu de 6,5% para 8,9%. A possibilidade de impeachment ficou cada vez mais real e as revelações da operação Lava Jato afastaram os investimentos estrangeiros que já eram moderados.

Os eventos culminaram com o afastamento da presidente. O país estava, de fato, em crise.

Como consequência, naquele mesmo ano fatídico, as IES particulares viram o número de matrículas despencar em 30% na segunda metade do ano, a porcentagem de inadimplência disparar em quase 10% e os contratos serem encerrados em quase 60%.

As IES menores foram ainda mais prejudicadas, já que quase 70% de seus universitários tinham Fies. Hoje, o programa já não é o carro-chefe da captação de novos alunos.

 

 

Instituições precisam aprender a ser independentes do Fies, mas como?

Em entrevista ao jornal O Globo, o especialista em ensino superior, Carlos Monteiro, afirma: “(…) as faculdades privadas têm de deixar de ser viúvas do Fies. Precisam se planejar para financiar seus alunos no longo prazo e mudar seus modelos, com uma educação continuada pelo resto da vida (…)”.

Mas, como fazer isso? Aqui vão algumas sugestões:

 

  • Financiamento privado

Talvez a sua IES possa oferecer aos estudantes seu próprio financiamento privado. Em uma das opções, o aluno paga o valor integral do curso no dobro do tempo de duração.

Analise a viabilidade de iniciar algum modelo de parceria com um banco privado para a concessão de financiamento em várias etapas da captação e retenção de alunos.

 

 

  • Ensino à Distância

 

Mais de 46% de cursos tecnológicos já são à distância, percentual que era apenas de 16,3% em 2007. Em 4 anos (2014 a 2018), os polos de Educação à Distância triplicaram – passaram de cerca de 5 mil para quase 15 mil.

No atual momento, é pertinente que os gestores procurem informações sobre os modelos mais adequados de EaD para balancear suas perdas com o declínio do crédito estudantil.

É bom lembrar que o ensino superior só voltou a crescer ano passado por causa do ensino à distância.

 

 

  • Cursinho pré-vestibular

 

Embora o foco seja os universitários, algumas IES lançaram mão da criação de cursinhos preparatórios para o vestibular, direcionados aos estudantes do ensino médio.

O objetivo é compensar, ao menos, parte da perda de lucro causada pelas restrições do governo ao programa de financiamento.

Como estamos na era virtual, há empresas de educação apostando em revisão de conteúdo, reforço e aulas online. Tudo pago.

 

 

Conclusão

Já no começo deste ano, o novo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, deu o recado de que “a ideia de universidade para todos não existe”, contrariando o que foi dito até aqui sobre democratizar o ensino superior.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o ministro afirmou também que “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica [do país]”. E acrescentou que a procura pelo ensino superior pode diminuir com o estímulo aos cursos técnicos.

 

 

Por quaisquer que sejam os motivos,  as IES do Brasil já tiveram sinais suficientes de que não poderão contar com o programa de financiamento do governo para sempre.

É melhor se adaptar, ou corre-se o risco de não sobreviver.

Precisa de dicas sobre atendimento ao cliente? Leia sobre o assunto no blog Quero Alunos e assine nossa newsletter. Baixe também nosso rico material sobre atendimento ao cliente e o setor educacional.

O que você achou deste conteúdo?

Muito RuimRuimRegularBomMuito Bom (média: 5,00)
Loading...

Sérgio Fiuza

View posts by Sérgio Fiuza
Sérgio é VP de Mercado da Quero Educação, startup que já inclui mais de 300 mil estudantes no ensino superior brasileiro por meio da concessão de bolsas de estudo. Além disso, construiu também carreira acadêmica, atuando como professor na Fundação Dom Cabral e Fundação Getúlio Vargas, além de participar de projetos no MIT e na Michigan State University.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Scroll to top
[números e fatos]
[números e fatos]